Não há promessa de felicidade mais credível que um filho.
a viagem ao norte
O mundo é grande, não pela quantidade de países ou fronteiras; encontrar pessoas e lugares singulares é o que nos faz viver numa terra imensa, ou numa sala minúscula. Olhando por este ponto de vista, Moçambique é um pequeno continente. Estou de volta à Maputo, só que 10.000 Km mais velho.
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aquela pessoa
Aquela pessoa está perdida noutro planeta, só, sua nave destruída; todos que a rodeiam e não a entendem arremessaram sua vida ao vazio estelar da solidão. Está já morta, pois não vive, enterrou-se na rotina de esperar pelos que nunca voltarão. Está surda, muda, cega, pois não ouve, não é ouvida e tem os olhos inutilizados pelas lágrimas ininterruptas. Aquela pessoa está no fim, a queimar o resto da cera; já faz algum tempo que não há luz no fim do que quer que seja. Aquela pessoa é minha mãe.
fronteiras
Em Nampula esbarram na rua pessoas de religiões diferentes, divergentes e quase opostas. Os trajes, as cores da pele e das roupas, os traços que indicam descendências e etnias; tudo muda bruscamente de uma pessoa para outra. Para mim é quase inexplicável como pode haver alguma paz entre tipos tão distantes, já que alguns destes são bastante radicais em relação aos seus costumes e crenças. Um olhar deslumbrado pode se enganar ao imaginar um lugar onde todos convivem bem com a diferença. Basta tentar se comunicar com alguns indianos para descobrir que esta paz tem a ver com o respeito às fronteiras culturais, invisíveis mas praticadas naturalmente em Moçambique. Aqui há vários países, demarcados às vezes por uma pastelaria, uma rua, uma esquina.
a voz do silêncio
Sempre subo a rua da rádio esperando encontrar o autor dos cartazes. Passei por ali mais de uma centena de vezes e nunca o vi. Os papelões desaparecem, a parede esvazia, mas dias depois ele volta a preencher o seu blog analógico. Desta vez o louco estava lá, sentado na calçada, pintando sobre o papelão. Fiquei paralisado. Por mais que eu soubesse que ele existia, parecia o contrário. Balbuciou algumas palavras, não quis me dizer seu nome, deixou claro que naquele mundo não se trocam palavras. Os cartazes são a sua voz, silenciosa para os tantos que passam pela calçada da rua da rádio e nunca param para ler. O silêncio é a sua língua.
Nota sobre o rascunho-livro “A casa flutuante”.
O louco dos cartazes
Cruzo sempre com alguns cartazes de papelão expostos na rua da rádio. Não me decido sobre o quanto o autor daquelas frases é sábio ou louco. Em alguns momentos de lucidez, reflito sobre o quanto me vale manter um cadastro mental de preconceitos, cheio de retratos que de tão imprecisos são quase inúteis. Devido a certa misantropia, quase nunca encontro personagens que valham uma investigação mais ampla, como é o caso do artista dos cartazes. Suas frases me provocam um respeito estranho, mas principalmente, me fazem pensar sobre a loucura.
A liberdade e a prisão podem se mostrar de tantas maneiras que nem me atrevo a definir nenhuma delas. A loucura e a lucidez podem ser ainda mais indefiníveis. Quando leio os cartazes penso sempre em quem é mais livre, ele ou os que se dizem lúcidos. Penso em qual razão reside mais verdade. É sufocante a nossa obediência às restrições que costumamos aceitar, da mesma forma como a loucura me parece libertadora.
Por que escrever sobre a loucura? A resposta é o próprio livro. Ou talvez ele seja somente uma pergunta, longa, melhor formulada, à espera de uma resposta que nunca virá.
Nota sobre o rascunho-livro “A casa flutuante”.
a mania de Pedro
Pedro costumava posar para uma câmera imaginária. Notei isto uma vez e nunca mais aquele tique me passou despercebido. O figurino, os trejeitos, as frases feitas, as deixas aproveitadas a todo instante; ele embrulhava meu estômago mental.
Na última sexta-feira, voltavam do bar num Uno 96 o Pedro e mais dois amigos viciados em Star Wars. Ninguém esperava que aquele vira-lata sonolento cruzasse o caminho do carro dando início a uma cinematográfica cena de capotamento. Pasmo, Pedro escapou do desastre encaixando seus quase dois metros de altura na minúscula janela daquele carro popular – evidente que por sorte -, caindo sentado sobre o asfalto, observando a sucata que se distanciava cada vez menos parecida com um carro. Fiquei puta da vida quando soube que tudo aquilo aconteceu. Imagino o sorriso monalísico do Pedro quando se viu dentro daquele set de filmagem real.
Por um instante Pedro chegou a fantasiar que sua vida era realmente um filme. Posou de novo para a câmera imaginária e olhou o céu, esperando um clássico plongé que seria encerrado por uma qualquer frase feita. Foram alguns segundos inúteis, intermináveis. Antes que abrisse a boca foi esmagado por um caminhão que descia a rua guiado por um motorista que não fazia a menor idéia de que um babaca estava sentado na pista, posando para uma câmera imaginária.


